Ioanna Xenophontos, diplomada do Programa Internacional de Doutoramento em Psicologia Aplicada da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa (FEP‑UCP), explorou o “legado psicológico” do conflito no Chipre. A sua investigação revela de que forma o trauma intergeracional molda a identidade étnica das gerações mais jovens e propõe um novo enquadramento de reconciliação centrado na cura emocional e na reconstrução da identidade.
A ligação pessoal da estudante de Doutoramento aos temas do trauma intergeracional, da identidade étnica e da reconciliação, aliada a um forte interesse pela psicologia e pela mudança social, conduziu à elaboração de uma tese de doutoramento intitulada “Intergenerational Trauma and the Transformation of Ethnic Identity: A Qualitative Study on Designing a Reconciliation Programme for Young Cypriots”.
Sob a orientação de Mariana Barbosa, docente na FEP‑UCP, a investigação de Ioanna analisou de que forma o trauma do passado não resolvido continua a influenciar as gerações mais jovens que não viveram diretamente o conflito no Chipre, e de que modo os programas de reconciliação podem ser benéficos para promover formas mais inclusivas de relação. A investigação demonstrou que, mesmo sem experiência direta do conflito, jovens greco‑cipriotas e turco‑cipriotas continuam a carregar o seu legado psicológico e emocional, e que o trauma herdado molda a forma como compreendem a sua identidade étnica e se relacionam com os outros, tornando a reconstrução da identidade um componente essencial de uma reconciliação significativa e duradoura.
Para Ioanna, o percurso de Doutoramento não foi apenas um trabalho académico, mas também uma exploração significativa da identidade, da história e da divisão. Sendo greco‑cipriota, o seu contexto pessoal desempenhou um papel importante na motivação subjacente à investigação. “A motivação foi tanto pessoal como profissional”, explica. “Enquanto greco‑cipriota, cresci no contexto mais amplo da questão cipriota, pelo que as questões de identidade, história e divisão estiveram sempre presentes, de uma forma ou de outra.”
Compreender a identidade e o trauma para além da política
No início do Doutoramento, Ioanna identificou uma lacuna significativa na forma como a questão do Chipre é habitualmente abordada. “Senti que muitas discussões sobre o Chipre se centram na política, mas que não é dada atenção suficiente às dimensões psicológicas e emocionais de viver numa sociedade dividida”, refere.
A sua investigação foi orientada por três questões principais: como definem hoje a sua identidade étnica os jovens cipriotas; se o trauma das gerações anteriores continua a ser transmitido através da família e da sociedade; e que elementos práticos são necessários para conceber um programa de reconciliação significativo para os jovens no Chipre.
Com foco no Chipre, o estudo examinou a forma como jovens greco‑cipriotas e turco‑cipriotas, nascidos após os principais episódios de violência, crescem numa sociedade dividida e como o trauma herdado influencia o seu sentido de identidade étnica. A partir de uma perspetiva psicológica, a investigação examinou também de que modo os programas de reconciliação podem apoiar formas mais saudáveis e inclusivas de relação entre jovens.
A relevância desta investigação no contexto atual
A relevância desta investigação vai muito além do contexto cipriota. Num mundo em que muitas sociedades continuam a viver com as consequências da guerra, do deslocamento, da polarização e da injustiça histórica, o estudo oferece contributos relevantes para compreender de que forma o trauma persiste ao longo do tempo. Como sublinha Ioanna Xenophontos, “o trauma não desaparece simplesmente com o tempo; pode ser transmitido através de narrativas, instituições e atitudes sociais”.
Ao centrar‑se nas gerações mais jovens, de quem cada vez mais é esperado que construam futuros mais pacíficos e inclusivos, a investigação destaca a importância de compreender o trauma intergeracional para ultrapassar a divisão e criar uma paz que perdure no tempo.
Uma abordagem qualitativa centrada nas experiências vividas
Do ponto de vista metodológico, o estudo adotou um desenho qualitativo, recorrendo a entrevistas semiestruturadas e à análise temática reflexiva. Os participantes incluíam jovens greco‑cipriotas e turco‑cipriotas, facilitadores de iniciativas de reconciliação e investigadores com experiência no contexto cipriota.
“Esta abordagem qualitativa foi essencial, pois permitiu que os participantes falassem em profundidade sobre as suas emoções, experiências vividas e significados pessoais”, explica Ioanna. “Em vez de impor pressupostos, pude ouvir a forma como os próprios participantes descreviam as suas realidades.”
A riqueza destas narrativas desempenhou um papel crucial não só na compreensão da identidade e dos mecanismos de transmissão do trauma intergeracional, mas também na construção do modelo de reconciliação proposto. Os contributos dos participantes salientaram a importância da segurança emocional, da construção de confiança, da reflexão e da reconstrução da identidade como componentes centrais de iniciativas de reconciliação eficazes.
O que a investigação revela sobre Identidade e Reconciliação
Da investigação de Ioanna emergiram vários resultados relevantes. Em primeiro lugar, os resultados obtidos mostram a forma como os jovens cipriotas experienciam a sua identidade étnica. De acordo com o estudo, a identidade é frequentemente experienciada como significativa e complexa, mas também conflituosa.
A investigação confirma ainda que o trauma pode persistir ao longo das gerações. Como refere Ioanna, o trauma é transmitido “através da comunicação familiar, da educação e dos contextos sociais”, continuando a influenciar as gerações mais jovens muito depois do fim do conflito.
No que diz respeito à reconciliação, os resultados sugerem que os programas são mais eficazes quando criam espaços seguros, promovem uma ligação humana genuína e apoiam os participantes na reinterpretação de narrativas herdadas. “Reconstruir a identidade para além do conflito pode ser um dos caminhos mais importantes para uma paz duradoura”, conclui.
Desafios, complexidade emocional e descobertas inesperadas
Investigar trauma e identidade numa sociedade pós‑conflito apresentou vários desafios. “O aspeto mais desafiante foi a sensibilidade do tema”, recorda Ioanna. As discussões em torno da identidade, da história e do trauma são frequentemente emocional e politicamente carregadas, o que dificultou o recrutamento, devido à hesitação dos participantes em envolver‑se abertamente nestas questões.
Ao mesmo tempo, a investigação trouxe momentos gratificantes. “A parte mais gratificante foi ouvir as histórias e reflexões dos participantes”, refere. A estudante de Doutoramento destacou que “Muitas conversas revelaram honestidade, abertura e um desejo genuíno por algo melhor”.
O aspeto que mais surpreendeu Ioanna foi o impacto emocional e social do conflito em pessoas que não o viveram diretamente. Igualmente surpreendente, e também esperançoso, foi o nível de empatia, nuance e abertura demonstrado por muitos participantes ao refletirem sobre temas difíceis e dolorosos.
Da investigação de Doutoramento ao impacto real
Para além do seu contributo para o contexto cipriota, a estudante de Doutoramento espera que a sua investigação ajude a redefinir a forma como a reconciliação é compreendida e abordada de forma mais ampla. Enfatiza que a reconciliação não deve limitar‑se a acordos políticos, devendo também abordar processos psicológicos mais profundos. A investigação sublinha ainda a importância de intervenções culturalmente sensíveis e desenvolvidas em estreito diálogo com as pessoas a quem se destinam.
Após a defesa bem‑sucedida do Doutoramento, os planos imediatos de Ioanna incluem a publicação dos três artigos desenvolvidos a partir da tese e a continuação da expansão das suas implicações práticas. Demonstra particular interesse em colaborar em projetos que traduzam os resultados da investigação em aplicações no mundo real, seja através do desenvolvimento de programas, de investigação adicional ou de trabalho aplicado em psicologia e construção da paz.
Idealmente, Ioanna Xenophontos gostaria de ver o seu enquadramento de reconciliação proposto a ser testado e avaliado na prática, permitindo que a investigação académica informe a intervenção social. Como a mensagem central da sua tese deixa claro, “a paz não é apenas acabar com o conflito; é também curar o que o conflito deixa para trás”.