Pausa com livros: sugestões da docente Vânia Sousa Lima para este verão

Segunda-feira, Agosto 4, 2025 - 10:47

Neste mês de agosto, propomos uma pausa para a leitura. Ler é uma forma de escutar os outros e, no processo, reencontrarmo-nos. Nesta seleção, Vânia Sousa Lima, docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa (FEP-UCP), sugere cinco livros que falam da identidade, da perda, do riso e da inquietude de sermos humanos. O texto abaixo é da sua autoria.

 

As recomendações de Vânia Sousa Lima:

O desenvolvimento da alteridade, condição de se ser pessoa em relação (respeitando-se a si, ao Outro e à relação), requer o confronto com a diversidade. A leitura para tal pode contribuir, como refere Natsukawa no seu livro O Gato que Amava Livros: “Os livros estão cheios de pensamentos e sentimentos humanos. Pessoas que sofrem, pessoas que estão tristes ou felizes, que riem de alegria. Ao ler as palavras e as histórias dos livros, ao vivê-las em conjunto, aprendemos sobre os corações e as mentes de outras pessoas além de nós próprios.”

E se paradoxal pode ser propor leituras quando lemos Haruki Murakami em Norwegian Wood que “se te limitas a ler os livros que toda a gente lê, acabas por pensar o mesmo que pensam as outras pessoas”, não me escuso ao desafio de identificar livros que julgo possam contribuir para o ser-se pessoa em relação, ainda que corra o risco que António Lobo Antunes dá a conhecer sobre o pesadelo de Norman Mailer: “Eu estava morto há vinte anos (…) e as pessoas estavam a discutir os meus livros. E eu queria voltar a viver para lhes dizer: «Não é nada disso!».

 

4321 – Paul Auster

Este livro de um dos mais aclamados autores norte-americanos, falecido no ano passado, ilustra cabalmente quão diferente pode a vida de uma pessoa ser se diferentes coisas ao longo da sua vida ocorressem. Na influência recíproca e contínua entre características e escolhas individuais e circunstâncias contextuais, fica plasmada a multiplicidade de trajectórias desenvolvimentais possíveis na(s) história(s) de um indivíduo e no desenvolvimento da sua identidade, em permanente mudança. Se é certo que esta assumpção perpassa a obra de Paul Auster, tal é em 4321 condensado. 4 livros num livro, múltiplas pessoas nas mesmas personagens (como cria Luigi Pirandello em Um, Ninguém e Cem Mil).

 

Os Inquietos - Linn Ullmann

Escreve Valter Hugo Mãe em Deus na Escuridão que “à morte de um pai, a começar só vemos medo". Em Os Inquietos, Linn Ullmann percorre conversas gravadas que teve com o seu pai, o cineasta Ingmar Bergman, no que seria material para um livro conjunto em torno do confronto com o envelhecimento e a inevitabilidade da finitude de vida. Sete anos volvidos da morte do pai e da óbvia interrupção deste projecto partilhado, Linn Ullmann abre a caixa que contém as gravações e confronta-se com histórias que são suas, sejam próprias ou por legado. Embebido de memórias da sua infância, adolescência e juventude, este é um livro sobre “a complexidade das pequenas coisas”, das relações familiares, no desejo escrito por Ingmar Bergman à sua filha (à data com dois anos) para que tivesse “uma saudade constante e esperança, porque não se pode viver sem saudade”.

 

Versátil – David Epstein

Ao citar o psicólogo Gary Marcus “em problemas reais de múltiplas soluções ainda estamos (humanos) a dar cabo das máquinas” e estudando o percurso de profissionais de diferentes áreas (desporto, cientistas, gestores, artistas), David Esptein faz neste livro a apologia (sustentada, ilustrada, discutida) do conhecimento generalista e transferível, gerando maior flexibilidade, adaptabilidade e criatividade do que a especialização num momento precoce da formação. A possibilidade e o potencial de envolvimento em actividades diversas como elemento motriz de desenvolvimento pessoal e profissional ficam nesta obra bem plasmadas, na experimentação dos múltiplos “eus possíveis” com quem, como que nas obras de Dostoiévsky, é possível conversar.

 

Isto tem piada? – Jerry Seinfeld

Num momento em que os limites do humor estão em equação, um livro com uma pergunta como título, que resulta da compilação e selecção de material de cinco décadas de actuações de stand-up comedy do afamado humorista norte-americano Jerry Seinfeld pode ser uma interessante obra para dar sequência à discussão. Como refere o autor, “o público decide” se algo tem ou não piada, mesmo ante o paradoxo de, se o público fosse capaz de criar algo engraçado, não teria necessidade de ir a um clube de comédia. A ideia do Papa Francisco de que “o sentido de humor humaniza”, também na imperfeição, tem eco nos agradecimentos finais de Jerry Seinfeld neste livro: “O verdadeiro sentido das nossas vidas é que (…) nunca deixamos de tentar” ou, como canta Jorge Palma “Enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar”. E creio que isto tem piada.

 

Poemas Escolhidos - Mia Couto

Em Disgrace, J.M. Coetzee escreve, através da sua personagem principal “in my experience, poetry speaks to you either at first sight or not at all”. Mia Couto é um premiado romancista, contista e cronista, afirmando, porém, “vir da poesia”. Neste Poemas Escolhidos reúne uma selecção por si feita de poemas de Idades cidades divindades, Raiz de orvalho e outros poemas e Tradutor de chuvas. Se a poesia é “errar bonito” e, de acordo com Maria Rosário Pedreira em O Canto do Vento nos Ciprestes “é no momento que encerra a beleza de um gesto | que se prolonga a vida”, esta obra (escrita em português europeu - seguindo as regras do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 - apesar de publicada no Brasil) será um belo prolongar do erro bonito deste escritor moçambicano.