Inês Azeredo Caeiro: “O voluntariado é um exercício de vulnerabilidade que nos torna mais humanos.”

Sexta-feira, Janeiro 23, 2026 - 14:47
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Inês Azeredo Caeiro é diretora executiva da Fundação Vasco Vieira de Almeida. Licenciada e mestre em Psicologia pela Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, tem um percurso fortemente ligado à intervenção social e ao voluntariado. Depois de nove anos de trabalho no terreno, na Vida Norte, integrou o universo corporativo, criando pontes entre investidores, voluntários e organizações sociais através da Fundação Vasco Vieira de Almeida. Nesta entrevista, fala sobre escolhas profissionais nem sempre óbvias, responsabilidade social corporativa e o papel profundamente transformador do voluntariado na construção pessoal e profissional.

O que a levou a escolher Psicologia e que áreas a marcaram durante a licenciatura?

Na altura, a escolha não foi muito intencional. Sabia que queria trabalhar numa área com contacto próximo com as pessoas e cheguei a ponderar áreas da saúde e o serviço social. A Psicologia acabou por combinar essa vontade de trabalhar com pessoas com a possibilidade de conhecer a mente humana, perceber a dinâmica das relações e compreender o impacto que estas têm na nossa forma de estar, pensar e sentir.
Durante a licenciatura, marcaram-me principalmente as disciplinas ligadas à psicoterapia de crianças e adultos e à saúde mental, sobretudo a ênfase na prevenção. Por ter uma família grande e muitos amigos, nunca tinha refletido verdadeiramente sobre o impacto que a rede de apoio tem no tratamento, na cura e no prognóstico de uma doença mental.
O estágio curricular num centro de saúde e em projetos de prevenção mostrou-me que um problema de saúde mental não se resolve isoladamente: ao trabalhar, por exemplo, com uma criança, é essencial envolver toda a comunidade - escola, educadores, colegas, pais -, e compreender todos os contextos em que essa pessoa está inserida.

 

“A Católica mostrou-nos que existiam outras formas de aprender fora das salas de aula e de nos desenvolvermos enquanto pessoas."

 

Quando é que se cruza com a área social?

Depois de terminar o mestrado, comecei a trabalhar na Vida Norte, uma associação de apoio a grávidas e famílias em situação de fragilidade. Foi na Vida Norte que descobri o fascínio pela intervenção social. Durante o curso, já tinha desenvolvido esse interesse através do voluntariado (através da CASO – Católica Solidária e do Serviço Comunitário) e, na Vida Norte, pude concretizá-lo profissionalmente. O meu trabalho consistia em acompanhar mulheres grávidas e famílias. Começávamos por fazer uma avaliação das necessidades, identificávamos os recursos disponíveis e estabelecíamos um plano de acompanhamento com várias vertentes: apoio psicológico, apoio social, capacitação, disponibilização de bens materiais, visitas domiciliárias e ativação da rede de suporte. Estive nove anos dedicada ao acompanhamento próximo das famílias. Foi um trabalho que me marcou muito porque, apesar de lidar diariamente com fragilidade humana, também era possível ser um veículo de esperança e ânimo, ajudando a transformar histórias difíceis em trajetórias de suporte e crescimento.

Nove anos depois integra a Fundação Vasco Vieira de Almeida, onde é, atualmente, diretora executiva.

Depois de nove anos na Vida Norte, onde me sentia muito realizada, surgiu a oportunidade de integrar a Fundação Vasco Vieira de Almeida (fundação corporativa instituída pela VdA), onde atualmente sou diretora executiva. Sentia que precisava de um desafio profissional. Na Fundação, mergulhei no setor corporativo e, em particular, na área da responsabilidade social corporativa. Percebi que, além de conhecer profundamente as necessidades das organizações sociais no terreno, podia também atuar do lado dos investidores e das empresas, continuando a apoiar o setor social a partir dessa perspetiva. O meu trabalho na Fundação consiste essencialmente em criar e fortalecer pontes entre os investidores (VdA e Fundação Vasco Vieira de Almeida), quem quer ajudar (colaboradores e voluntários) e as organizações sociais que estão na linha da frente e que vivem, muitas vezes, com recursos muito limitados.

Quais são as áreas de atuação da Fundação?

Atuamos principalmente em quatro áreas: educação, justiça e direitos humanos, conhecimento e ciência, e cultura. O nosso papel fundamental é apoiar organizações sociais que atuam nestes domínios. A visão e missão da Fundação sempre estiveram orientadas para educar para a cidadania e promover oportunidades para que os colaboradores da Vieira de Almeida exerçam a sua responsabilidade cívica no âmbito profissional. Promovemos a educação para a cidadania dentro do escritório e facilitamos oportunidades para que os nossos colaboradores se envolvam diretamente nos projetos que apoiamos. O nosso apoio às organizações inclui tanto investimento financeiro - fundamental para garantir a continuidade dos projetos nas comunidades - como investimento não financeiro, que engloba ações de voluntariado, formação e capacitação, programas de mentoria e campanhas de angariação de fundos.

Que projetos apoia a Fundação Vasco Vieira de Almeida?

A maioria dos projetos que apoiamos e nos quais atuamos enquanto investidores e parceiros, desenvolvem a sua ação em Portugal, mas também apoiamos alguns projetos que têm deixado uma grande marca em Angola, em S. Tomé e Príncipe e em Moçambique.
Por exemplo, colaboramos com organizações como a Teach for Portugal, o Upfarming, Stand4Good, a Comunidade Vida e Paz, a Junior Achievement Portugal ou a Girl MOVE Academy.
Ao nível internacional, destaco a Girl Move Academy, que promove a liderança e o empreendedorismo entre jovens moçambicanas, particularmente em Nampula. Todos os anos, recebemos duas jovens para um estágio intensivo na VdA, no qual, durante cinco semanas, os colaboradores atuam como mentores, proporcionando experiências de crescimento pessoal e profissional bem como o contacto direto com o mercado de trabalho. Este projeto cria um impacto muito grande tanto nas girl movers, que adquirem ferramentas e inspiração para enfrentar novos desafios, como nos colaboradores, que são contagiados por novas ideias e por um espírito muito marcado de inovação e empreendedorismo social.
A Fundação também promove projetos próprios, como o InclusivaMente, que lançámos em 2019, em parceria com a EAPN Portugal – Rede Europeia Anti-Pobreza, e que incide nas áreas da saúde mental e dos direitos humanos no envelhecimento e na saúde mental. Com a entrada em vigor do novo Estatuto do Maior Acompanhado, percebemos que existia muito desconhecimento por parte das organizações sociais acerca das implicações deste estatuto e criámos então um programa de formação dirigido a técnicos, dirigentes, familiares e beneficiários, abordando temas como direitos e deveres das pessoas em situação de maior vulnerabilidade, testamento vital e preparação para a longevidade.
Para além destes projetos continuados, também promovemos ações pontuais no escritório. Acreditamos que a mudança social exige o esforço conjunto de pessoas, empresas e organizações e, sendo uma fundação associada a uma firma que atualmente tem mais de 500 colaboradores, reconhecemos a nossa responsabilidade acrescida nesse processo.

 

O meu fascínio e compromisso com a área social, esta paixão por fazer a diferença, nasceram das experiências de voluntariado.

 

Esteve sempre ligada a iniciativas de voluntariado. De que forma é que o voluntariado fez parte da sua formação e como contribuiu para a profissional que é hoje?

O voluntariado foi um fator decisivo na minha formação. A importância de cuidarmos uns dos outros, sobretudo das pessoas que se encontram em situação de maior vulnerabilidade, sempre me foi transmitida pela família, mas só quando comecei a envolver-me diretamente em projetos de voluntariado através da Católica percebi o impacto real que esse tipo de experiência tem, tanto em quem ajuda como em quem é ajudado.
A Católica teve um papel fundamental: mostrou-nos que, para além das disciplinas essenciais do curso, existiam outras formas de aprender fora das salas de aula e de nos desenvolvermos enquanto pessoas. O voluntariado trouxe-me muito desse crescimento e ajudou-me a perceber a forma como queria posicionar-me no mundo.
Depois de terminar o mestrado, integrei o Grão, um grupo de voluntariado ligado aos Jesuítas, e fiz uma missão de dois meses em São Tomé e Príncipe. Todas estas experiências de voluntariado aproximaram-me da fragilidade humana, tornando-me mais sensível, empática, prática e ajudando-me a sair do meu próprio umbigo. Percebi como a fronteira entre a estabilidade e a vulnerabilidade pode ser muito ténue.

Que competências é que o voluntariado lhe trouxe?

Tornou-me uma pessoa mais próxima, empática e capaz de comunicar com diferentes perfis. Esta capacidade de proximidade e comunicação é fundamental no mercado de trabalho. Além disso, estar em situações de desconforto permite-nos reconhecer a sorte que temos e valorizar mais a nossa realidade. Sem dúvida, o meu fascínio e compromisso com a área social, esta paixão por fazer a diferença, nasceram dessas experiências de voluntariado. Elas ensinaram-me a valorizar o trabalho das equipas sociais e dos voluntários que lidam diariamente com a fragilidade humana. E, sobretudo, mostraram-me que só conseguimos lidar melhor com a fragilidade dos outros quando também nos permitimos vivê-la: o voluntariado é, em si, um exercício de vulnerabilidade que nos torna mais humanos.

 

"Se antes a responsabilidade social era um nice to have, hoje é um must have. As empresas que não se envolvem ficam “fora da corrida."

 

Como avalia o panorama da responsabilidade social corporativa em Portugal?

Olho com esperança. A jornada para a sustentabilidade é longa e cada empresa parte de um contexto diferente: há aquelas que já se preocupam com responsabilidade social há muitos anos e outras que estão apenas a começar. Apesar disso, vejo progressos importantes. Se antes a responsabilidade social era um nice to have, hoje é um must have. As empresas que não se envolvem nestas áreas acabam por ficar “fora da corrida”. Além disso, a responsabilidade social tornou-se um fator de retenção de talento. Se um colaborador tiver de escolher entre duas empresas onde o salário é equivalente, provavelmente optará por aquela com a qual se identifica em termos de propósito e valores. Por isso, vejo este compromisso como um elemento de competitividade. Noto também que algumas empresas, que até agora não tinham intervenção relevante nestas áreas, estão cada vez mais empenhadas em desenvolver programas de voluntariado corporativo, projetos de investimento de impacto, inovação social e protocolos de longo prazo com organizações sociais. Não se trata apenas de caridade ou de donativos ocasionais: há uma estratégia mais consciente e estruturada para gerar impacto duradouro nas comunidades e promover a sustentabilidade.

Que conselho daria a estudantes que se preparam para seguir uma carreira na área social?

O meu conselho é que se envolvam no terreno. Uma experiência de voluntariado ou de trabalho direto com organizações sociais é essencial para quem quer trabalhar em impacto social. No meu caso, os nove anos que passei na Vida Norte foram determinantes quando integrei a Fundação: já conhecia as necessidades das organizações, tinha adquirido competências e conseguia antecipar desafios. O voluntariado é uma excelente preparação. Sejam voluntários de forma genuína, envolvendo-se de corpo e alma. Não se trata apenas de “fazer” voluntariado - ir um dia e voltar para casa -, mas de ser voluntário, incorporando esse espírito de serviço na forma de estar e colocando-se realmente à disposição de quem precisa.