Revisão da literatura identifica fatores de risco e de proteção associados à autolesão

Segunda-feira, Julho 20, 2026 - 09:56

Uma revisão da literatura com participação de Bárbara Cesar Machado, docente da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa (FEP-UCP) e investigadora do Centro de Investigação para o Desenvolvimento Humano (CEDH), reuniu evidência científica sobre os fatores de risco e de proteção associados à autolesão sem intenção suicida, analisando a investigação realizada com pessoas pertencentes a minorias sexuais e de género.

Os resultados sugerem que experiências de discriminação, estigma e exclusão social, bem como diferentes fatores psicológicos, estão associadas a uma maior vulnerabilidade à autolesão. Em contrapartida, fatores como o apoio familiar, a segurança no contexto escolar e o apoio social surgem como importantes elementos de proteção, reforçando a importância de estratégias de prevenção que promovam contextos mais seguros, inclusivos e afirmativos.

Publicado na revista científica “European Journal of Investigation in Health, Psychology and Education”, o artigo “Risk and Protective Factors Associated with Non-Suicidal Self-Injury in Sexual and Gender Minority Individuals: A Scoping Review” analisou 43 estudos publicados entre 2014 e 2026.

Segundo Bárbara Cesar Machado, “a revisão procurou mapear os fatores que contribuem para o aumento ou redução da vulnerabilidade à autolesão sem intenção suicida e compreender de que forma estes fatores interagem entre si”

Discriminação e fatores psicológicos associados à vulnerabilidade

A revisão identificou uma associação consistente entre comportamentos de autolesão e experiências de discriminação, estigma, vitimização e exclusão social.

Estas experiências tendem a coexistir com vulnerabilidades psicológicas, como sintomas depressivos, ansiedade, sofrimento emocional, autocrítica e dificuldades na regulação das emoções, estando associadas a uma maior vulnerabilidade à autolesão. 

De acordo com os autores, a autolesão não deve ser compreendida como consequência de um único fator. Pelo contrário, resulta da interação entre diferentes processos que se manifestam em vários contextos da vida das pessoas, desde as relações familiares e sociais até fatores estruturais mais amplos. 

A revisão mostra ainda que determinadas experiências, como o bullying relacionado com a orientação sexual ou a identidade de género, a violência, a rejeição e a falta de apoio social, podem exercer um impacto significativo na saúde mental e aumentar a vulnerabilidade à autolesão. 

Família, escola e apoio social fazem a diferença

Embora a literatura científica tenha dedicado maior atenção aos fatores de risco, a revisão identificou vários fatores protetores que parecem contribuir para a redução da probabilidade de autolesão. Entre eles destacam-se o apoio familiar, as relações positivas com pares, a segurança no contexto escolar, a autoestima, a resiliência psicológica e a capacidade de lidar de forma adaptativa com situações de adversidade. 

Os autores verificaram também que a ligação à família e à escola pode funcionar como um importante elemento de proteção, atenuando o impacto negativo de experiências como o bullying, a discriminação ou a exclusão social. O apoio social surge como um dos fatores mais consistentes na promoção do bem-estar psicológico e na redução do risco de autolesão. 

Apesar destes resultados, os investigadores alertam para uma importante lacuna na investigação: a maioria dos estudos centra-se nos fatores de risco, existindo ainda relativamente pouca evidência sobre os mecanismos que promovem a resiliência e a proteção. 

Para a equipa de investigação, estes resultados reforçam a importância de desenvolver estratégias de prevenção e intervenção que integrem diferentes níveis de ação. Para além do apoio psicológico individual, importa promover contextos familiares, escolares e comunitários mais seguros, inclusivos e afirmativos, bem como políticas que combatam a discriminação e reforcem o acesso a serviços de saúde mental adequados às necessidades destas populações.

Bárbara Cesar Machado é co-autora do artigo com Filipa Gomes (CiPsi, Universidade do Minho), Carol Coelho (CiPsi, Universidade do Minho), Daniela Fumega (CiPsi, Universidade do Minho), e Sónia Gonçalves (CiPsi, Universidade do Minho).