Quatro livros para começar 2026 com novas perspetivas

Segunda-feira, Dezembro 29, 2025 - 17:57

Entrar num novo ano é também abrir espaço para novas ideias, reflexões e descobertas. A leitura continua a ser uma das formas mais poderosas de ampliar horizontes e desafiar o pensamento. Por isso, convidámos quatro docentes da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa (FEP-UCP) a partilharem sugestões literárias para 2026. São obras que nos levam a questionar certezas, a explorar mundos interiores e a repensar o nosso lugar no mundo.

“a máquina de fazer espanhóis”, de Valter Hugo Mãe 

Sugestão do docente António Fonseca

a máquina de fazer espanhóis caracteriza-se por uma escrita efetuada em letras minúsculas, colocando no mesmo plano o título da obra, a nomeação do autor, do narrador e das personagens. a máquina de fazer espanhóis propõe uma visão geral da vida humana a partir da perspetiva de um idoso, num tom quase confessional. É talvez o desconforto o sentimento mais presente no livro: desconforto com o corpo, com o espaço, com o tempo. Uma angústia constante que prejudica a vivência do dia-a-dia, uma sensação de perda de controle refletida não apenas no ambiente externo, mas na incapacidade de domínio do próprio corpo, uma perceção de degradação que começa mesmo antes dela alcançar a corporeidade física. É uma visão sombria da velhice, acarretando sucessivas mutilações e derrubando progressivamente os pilares identitários por meio dos quais nos reconhecemos como pessoas.” 

“Bounce”, de Matthew Syed

Sugestão da docente Catarina Morais

 “'Quantas vezes já ouvimos — ou dissemos — perante um insucesso: “eu não sou bom a matemática [música ou desporto]'? Quantas vezes essas crenças nos impediram sequer de tentar ser bons, ou até extraordinários? Gostamos de acreditar que as grandes lendas das artes, do desporto ou da música nasceram com um 'dom', um talento misterioso reservado a alguns prodígios ou ‘predestinados’. Em Bounce, Matthew Syed desafia esta visão que, embora reconfortante, é bastante limitadora. Apoiado em investigação científica e numa narrativa envolvente, o autor desmonta o mito do talento inato e mostra que a excelência, muito mais do que uma genética especial, encontra na sua base um conjunto de fatores invisíveis. É um livro que muda a forma como vemos o sucesso e, sobretudo, como pensamos sobre o nosso próprio potencial!”

“Manual para Andar Espantada por Existir”, de Patrícia Portela

Sugestão da docente Diana Soares

"'Para usufruíres da leitura deste livro, da melhor maneira, escolhe um lugar ao ar livre ou com uma janela aberta...' assim nos é advertido, logo nas primeiras páginas. Foi o que fiz! Escolhi uma das tardes de sol, do meu agosto de 2025, com vistas desimpedidas para o nosso mar algarvio e, aí, parei para 'tentar não pensar só com a parte lógica do cérebro, para me poder espantar por existir'.

Ao longo de 132 páginas, mergulhei, num único fôlego, numa aventura sem fim, levada pela mão de personagens mágicas como a Fada Number One e a Senhora Verdade Nua, à espantável Floresta Branca e ao Quarto da Solidão. Descobri que é o que nos acontece quando ganhamos coragem e saltamos o Muro do Medo. E, quando em vez, volto a estes lugares mágicos, revisito partes deste livro (que sublinhei a cores coloridas) e, imediatamente, viajo da floresta branca até àquela tarde de sol e mar do meu agosto de 2025. 

'Psst, Psst, e tu aí? (...) Andas espantada por existires? Maravilhas-te com o mundo?' Se sim, então este livro é mesmo para ti!”

“A Mancha Humana”, de Philip Roth

Sugestão da docente Catarina Ribeiro

A Mancha Humana é uma obra intensa e profundamente provocadora que explora os limites da identidade, do preconceito e da moralidade arbitrária na sociedade contemporânea.  Nos Estados Unidos dos anos 90, o livro acompanha a história de Coleman Silk, um conceituado professor universitário cuja vida é abruptamente transformada após uma acusação aparentemente banal, mas carregada de implicações sociais e políticas.

Ao longo da narrativa, Roth constrói um retrato profundo das contradições humanas, revelando como julgamentos apressados, hipocrisia e intolerância podem destruir vidas e silenciar indivíduos e, consequentemente, atacar o bem mais precioso, que é a liberdade. O autor conduz o leitor por reflexões sobre preconceito, racismo, sexualidade, poder e o peso das aparências, sempre com uma escrita afiada, provocadora e surpreendente.

Carregado de personagens incómodas, densas, carismáticas, que nos despertam emoções fortes, que nos interpelam a cada momento, e nos agarram a uma trama que nos remete para os perigos do preconceito, da intolerância e do discurso discriminatório.

Mais do que contar uma história, A Mancha Humana convida o leitor a questionar certezas morais e a refletir sobre o quanto realmente conhecemos as pessoas ao nosso redor e como poderemos ser destrutivos na relação com os outros quando partimos apenas do nosso próprio quadro referencial. É uma obra pujante, corajosa, capaz de gerar debates sobre temas fraturantes e cuja leitura me parece extremamente necessária no momento atual.”

 

Porquê ler em 2026?

Ler é mais do que um hábito: é um exercício de pensamento crítico e uma oportunidade para alargar horizontes. Cada livro abre caminhos para compreender melhor o mundo e a nós próprios, permitindo questionar ideias, explorar novas perspetivas e enriquecer a experiência pessoal e académica. Que estas sugestões contribuam para um ano marcado pela curiosidade e pelo conhecimento.